O Jogo da Ética na Empresa

Por Maria Rita Gramigna

ÉTICA. Palavra curta, agradável aos ouvidos, incluída no vocabulário gerencial – principalmente na última década.

Os códigos éticos – implícitos ou explícitos – dão o tom no relacionamento cliente-fornecedor, indicam filosofias empresariais, compõem missões, definem negócios, apontam diretrizes de ação.

Comentários e afirmações chamam a atenção para o tema:

– “Isto é falta de ética”!

– “Temos por princípios éticos respeitar o ser humano em suas necessidades e potencial”

– “Nossa ética não permite tal decisão”;

– “Nossos contratos são regidos por princípios éticos”;

– “A ética do nosso negócio, etc… etc… etc…

O tempo das negociatas, dos conchavos, da corrupção (passiva ou ativa), do “passar a perna” no cliente, do “puxar o tapete” do colega, do “se apossar de idéias dos outros e omitir a autoria”, enfim, do “jeitinho brasileiro”, vem sendo questionado e tornou-se objeto de discussões cotidianas. Além das leis que protegem os direitos das pessoas, o desenvolvimento da consciência crítica e da cidadania se incorporam cada vez mais em nossa bagagem de valores.

Atitudes de indignação e reações contra a falta de ética estão presentes no comportamento organizacional da maioria das empresas.

Pressupostos básicos proclamados por Pierre Weil, Oscar Motomura, Takeshi Imai, Deming, Ishikawa e outros líderes em suas áreas de atuação, apontam uma nova ordem e nos fazem repensar sobre nossa visão de mundo e sobre o ser humano.

Neste texto, abordo o tema em questão, sem aprofundar no sentido puro e simples da palavra ÉTICA, e sim oferecendo aos gerentes a oportunidade de refletir sobre sua realidade empresarial, no que diz respeito à ética vigente em suas organizações.

O QUE É ÉTICA?

Dentre os diversos conceitos pesquisados, chamou-me a atenção o de Pierre Weil, em seu livro Organizações e Tecnologias para o Terceiro Milênio: ” Ética é o conjunto de valores construtivos que levam o homem a se comportar de modo harmonioso” E vai mais além: “Certo número de valores são intimamente ligados com a ética. São os valores que determinam opiniões, atitudes e comportamentos de uma pessoa. Quando são de natureza construtiva, as pessoas se comportarão de modo ético; o contrário também é verdadeiro”. Estes valores, afirma, influenciam a qualidade de vida, o desenvolvimento cultural e mesmo a preservação da própria cultura.

Os princípios éticos que deverão nortear a práxis nas sociedades do próximo século vêm sendo alvo de discussão, reflexão e questionamento nas diversas instituições existentes no BRASIL e no mundo. Acordos de cooperação e parceria, livres mercados e convênios de cooperação técnica, demonstram a necessidade do estabelecimento de uma nova ordem ético-social.

Sabe-se, a princípio que os valores componentes de nosso código de ética são aprendidos e incorporados sutilmente em nosso modo de ser.

A ÉTICA APRENDIDA

Nossas crenças determinam nosso comportamento na vida e na empresa. A transcrição do artigo abaixo, publicado no Chicago Sun Times, ilustra tal fato.

TUDO BEM FILHO, TODO MUNDO FAZ ISSO (Jack Griffin)

Johnny tinha seis anos e estava em companhia do pai quando este foi flagrado em excesso de velocidade. O pai entregou ao guarda, junto à sua carteira, uma nota de vinte dólares. “Está tudo bem, filho”, disse ele quando voltaram à estrada. “Todo mundo faz isso”!

Quando tinha oito anos, deixaram que Johnny assistisse a uma reunião de família, dirigida pelo tio George, sobre as maneiras mais seguras de sonegar o imposto de renda. “Está tudo bem, garoto”, disse o tio. “Todo mundo faz isso”!

Aos nove anos, a mãe levou-o pela primeira vez ao teatro. O bilheteiro não conseguia arranjar lugares até que a mãe de Johnny lhe deu, por fora, cinco dólares. “Tudo bem, filho”, disse ela, “Todo mundo faz isso!”

Com doze anos ele quebrou os óculos a caminho da escola. A tia Francine convenceu a companhia de seguro que eles haviam sido roubados e recebeu uma indenização de 75 dólares. “Está tudo bem, garoto”, disse ela. “Todo mundo faz isso”.

Aos quinze anos, foi escolhido para jogar como lateral-direito no time de futebol da escola. Os treinadores lhe ensinaram como interceptar e, ao mesmo tempo, agarrar o adversário pela camisa, sem ser visto pelo juiz. “Tudo bem, garoto”, disse o treinador. “Todo mundo faz isso”!

Aos dezesseis anos, arranjou seu primeiro emprego nas férias de verão, trabalhando num supermercado. Seu trabalho: pôr os morangos maduros demais no fundo das caixas e os bons em cima, para ludibriar o freguês. “Tudo bem, garoto”, disse o gerente. “Todo mundo faz isso”!

Já com 18 anos, Johnny e um vizinho candidataram-se a uma bolsa de estudos. Johnny era um estudante medíocre. O vizinho era um dos primeiros da classe, mas um fracasso como lateral-direito do time de futebol. Johnny ganhou a bolsa. “Está tudo bem”, disseram os pais. “Todo mundo faz isso”!

Quando tinha 19 anos, um dos colegas mais adiantados lhe ofereceu, por cinquenta dólares, as questões que iam cair na prova. ” Tudo bem garoto”, disse ele. “Todo mundo faz isso”!

Johnny, flagrado colando, foi expulso da sala e voltou para casa com o rabo entre as pernas. “Como você pôde fazer isso com sua mãe e comigo?”, disse o pai. “Você nunca aprendeu estas coisas em casa!”. O tio e a tia também ficaram chocados.

Se há uma coisa que o mundo adulto não pode tolerar é um garoto que cola nos exames… (extraído do livro O poder da administração ética, de Kenneth Blanchard e Norman Vincent Peale – Ed. Record).

O EXEMPLO

Tal como no caso de Johnny, adotamos comportamentos e atitudes que correspondem ao nosso aprendizado junto às pessoas que fizeram e fazem parte de nosso meio familiar, social e empresarial. Cada um de nós tem suas matrizes de identidade que nos legaram seus códigos de ética. Por outro lado, na medida em que repetimos a história, transformamo-nos em novas matrizes: pontos de referência para os que estão à nossa volta.

Quando vou trabalhar questões referentes a poder e ética nas organizações, costumo usar jogos e simulações que permitam ao grupo colocar em prática seus valores, para depois abrir fóruns de discussão sobre os comportamentos que permearam as jogadas.

O quadro abaixo permite que cada participante tenha a oportunidade de rever suas necessidades pessoais e identificar sua postura básica. Como resultado, o grupo chega ao diagnóstico de suas tendências à ética construtiva e/ou destrutiva.

VALORES E COMPORTAMENTO

NECESSIDADES

ÉTICA DESTRUTIVA

ÉTICA CONSTRUTIVA

De transcender

• Comportamento dissociado

• Atitude preconceituosa

• Desconfiança, descrença

• Discurso diferente da práxis

• Comportamento hamonioso

• Atitude aberta e inteira

• Confiança, crença no valor dos ser humano no

• Discurso coerente com a práxis

De conhecer

• Manipulação da informação em benefício próprio

• Aprender para si

• Omissão, mentira

• Partilhamento de informações pelo bem coletivo

• Fazer uso do aprendizado – agir como educador, trocar

De criar

• Criação e inovação a qualquer preço, em benefício próprio

• Rigidez, Visão focada

• Inovação em benefício da coletividade

• Flexibilidade

• Visão expandida

De afeto

• Chantagem emocional

• Manipulação

• Egoísmo

• Mágoas, ressentimentos

• Altruísmo

• Ajuda, empatia

• Compreensão

• Capacidade para perdoar

De poder

• Dominação

• Autoritarismo

• Centralização

• Dependência

• Autonomia

• Liberdade de expressão

• Delegação

• Partilhamento de responsabilidades

De Prazer

• Possessividade, apego

• Auto-desqualificação e desqualificação do outro

• Desconfiança Confiança

• Identidade fraca e baixa estima

• Compartilhamento

• Qualificação do outro

• Presença de auto-estima e identidade fortalecida

• Confiança no outro e auto-confiança

De segurança

• Posse de idéias de outros com omissão de autoria idéias

• Busca de vantagens pessoais

• Agressividade

• Jogo ganha-perde

• Compartilhamento de idéias e divulgação das fontes

• Busca de vantagens coletivas

• Tranqüilidade

• Jogo ganha-ganha.

Os valores norteadores das pessoas que tendem a um comportamento pautado pela ética destrutiva, partem da visão de um mundo mecanicista, baseada na crença cartesiana de que o homem precisa de controles e só age por coerção.

Aqueles que tendem à ética construtiva vêem o homem como um organismo vivo, que contém os princípios do universo (paradigma holístico). Acreditam que os valores precisam ser despertados e não controlados, pois já estão dentro de cada pessoa.

As discussões a respeito da ética vigente nas organizações têm sido ricas, principalmente por apontarem conseqüências dos dois modelos. Os próprios gerentes, em sua auto-avaliação, citam a necessidade de mudanças e demonstram comprometimento com melhorias.

As conclusões por eles obtidas, sinalizam direções de ação e caracterizam os dois modelos de administração:

BASEADOS NA ÉTICA DESTRUTIVA

BASEADOS NA ÉTICA CONSTRUTIVA

• Venda pelo maior preço

• Aumentos de produtividade sem reversão parcial de lucros para os trabalhadores

• Espionagem industrial

• Sonegação de impostos

• Despreocupação com o meio ambiente

• Despreocupação com a qualidade de vida do trabalhador

• Poder centralizado na mão de poucos

• Desconhecimento e desvalorização do potencial humano

• Clima de terrorismo

• Missão indefinida ou inexistente

• Objetivos pessoais em detrimento dos organizacionais

• Metas obscuras ou inexistentes

• Venda pelo preço justo

• Aumento de produtividade com reversão parcial de lucros para os trabalhadores

• Benchmarking

• Impostos em dia

• Ecologia ambiental e humana

• Programas voltados para a qualidade de vida do trabalhador

• Poder descentralizado com definição de responsabilidades

• Conhecimento, valorização e aproveitamento do potencial humano

• Clima harmonioso

• Missão clara e compartilhada por todos

• Objetivos compartilhados, ligados à missão

• Metas claras e compartilhadas

No novo milênio, onde o realinhamento de crenças e o valor da ética têm sido rediscutidos como conseqüência natural da cidadania e do desenvolvimento da consciência crítica, precisamos estar atentos às mudanças necessárias.

As fronteiras se flexibilizam ou se fecham na medida em que as empresas adotam um ou outro modelo.

Cabe, portanto ao corpo gerencial incentivar e iniciar mudanças.

Maria Rita Gramigna é Mestre em Criatividade Total Aplicada pela Universidade de Santiago de Compostela (Espanha). Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal de Minas Gerais e pós-graduada em Administração de Recursos Humanos pela UNA – União de Negócios e Administração (MG). Atua no Mapeamento de Competências, contatos estratégicos com clientes, capacitação gerencial e treinamento da equipe de consultores da MRG Consultoria e Treinamento Empresarial.

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